7.10.09

 

Interlúdio Eleitoral


Passaram já dois meses desde que aqui deixei a última crónica intitulada «Os Grandes Comunicadores».

Entretanto, realizaram-se eleições legislativas a 27 de Setembro e dentro de dias, no próximo Domingo, teremos eleições para as autarquias locais, perfazendo, desde as eleições para o Parlamento Europeu, quatro intensos meses de agitação e propaganda política, entontecendo um pouco mais este pobre povo, manso e crédulo, sempre levado em artificiosas romarias, aí pretensamente matando a sua pesada e já algo longa frustração política pós-abrilina.

Desde há cerca de três lustros que o País não apresenta crescimento económico significativo, sendo que em 4/5 deles tem sido governado pela longa e difusa mão de um Partido Socialista ideologicamente descaracterizado, rendido entusiasticamente às doutrinas económicas e financeiras do neoliberalismo e da globalização dos mercados, apesar das tentativas de disfarce dos últimos meses, meramente retóricas, quando a derrocada financeira americana se tornou evidente aos olhos de todo o Mundo.

Sócrates vencedor em 27 de Setembro passado, mesmo sem maioria absoluta, não deixa de constituir uma injustiça política, assente num equívoco popular de graves consequências.

Podem dizer que as alternativas eram fracas ou pouco convincentes, mas o que se julgava, em primeiro lugar, era uma Política de quatro anos, durante os quais Sócrates, então com maioria absoluta, atrofiou economicamente o País, fazendo tudo ao contrário do que havia prometido, carregando nos impostos o mais que pôde, sem diminuir a despesa pública, que continou a aumentar, ao sabor do povoamento que ele ia promovendo, assegurando lugares aos seus apaniguados, esquecidos de doutrinas e de ideais remotamente socialistas, mas ciosos da sua influência sempre crescente no aparelho de Estado.

O partido que poderia e deveria combater severamente esta Política, o Partido Social Democrático, andou longe do caminho certo para travar este combate. Enredado em lutas internas fratricidas, sem norte durante largo tempo, reanimado com o súbito e enérgico aparecimento de Paulo Rangel, a quem, em grande parte, se ficou a dever a vitória eleitoral de Junho, não logrou encontrar o rumo adequado, nem a orientação que se esperava.

Manuela Ferreira Leite nunca teve instinto político para conduzir o Partido, apesar da sua determinação anti-socrática. Mal rodeada, mal aconselhada pelas nulidades costumeiras, não soube explorar as imensas fragilidades de Sócrates, permitindo-lhe pavonear-se pelo País como arauto da Modernidade balofa, quando não tola e com frequência venal, assistido por uma central de propaganda especialista em fabricar incidentes e em marcar agenda política, com a conivência da maioria da Comunicação Social, só se discutindo aquilo que interessava à dita Central socrática.

Nem a presença de JPPereira, com a sua reconhecida perspicácia política, parece ter contribuído para aumentar a clarividência da direcção da campanha de MFLeite.

Veja-se como rapidamente saiu da discussão pública o caso do afastamento de Moniz e Manuela Moura Guedes, para se debater o momentoso tema das escutas telefónicas da Presidência da República, mal gerido também por Cavaco Silva, que carece nitidamente de adequada assessoria estritamente política, goste o Presidente ou não desta matéria, a verdade é que sem ela não se ganham eleições, nem se exerce a gestão macro-económica do País.

Também em nada ajudou certamente a repescagem política feita por MFL de figuras desprestigiadas e sob suspeição ética permanente, fornecendo à Central socrática matéria para dispersão de atenções, em que é perita, mesmo sabendo que conta no seu seio com casos idênticos ou mais graves, a começar na figura do seu actual líder.

Tudo isto acabou por levar a nova vitória do embuste socrático, que nada de bom pode augurar para o País.

O Povo escolheu esta solução, o que, dentro das regras do sistema democrático vigente, por todos aprovado, tem de ser aceite, concordemos ou não com a opção tomada.

Isto, contudo, não representa mais nada, nem serve para sancionar mais coisa nenhuma, nada valendo como atestado de idoneidade intelectual, ética ou profissional, como nos lembram os múltiplos exemplos de vitórias eleitorais de autarcas envolvidos em processos de corrupção, alguns até já condenados em Tribunal.

A nova vitória do PS significa apenas que há uma maioria relativa de Portugueses que o preferiram a ele e não aos outros Partidos, para formar o próximo Governo de Portugal.

Cabe aos adversários do partido ora vencedor, nomeadamente ao PSD, reabilitado, reformulado, depurado da remanescente ganga anti-social-democrática que nele persiste, continuar a luta pela desmistificação da política «socrática» e esperar que o Povo fique persuadido da sua nocividade.

Se o souberem fazer, se afirmarem a sua própria credibilidade política, certamente que o Povo, no momento azado, mudará o seu sentido de voto.

Até lá, ânimo para o combate, porque, como diz este mesmo Povo, não há mal que sempre dure...

AV_Lisboa, 06 de Outubro de 2009

Comments:
Caro António!
Após ler o seu texto, constato uma insatisfação manifesta pelos resultados eleitorais, pese embora em democracia termos que aceitar a vontade soberana do povo.
O novo governo terá uma tarefa árdua, extremamente complicada, tendo que dialogar de forma a estabelecer consensos.
Que seja um bom governo e que haja uma oposição credível e responsável.
O País precisa!

Abraço
 
Caro Leitor A.J.Faria,

Aceitar, aceito, como deixei escrito, por vias das regras do sistema a que aderimos, o que não significa que tenha de concordar com a escolha do eleitorado.

Julgo que a escolha feita trará novas decepções, mas confio que hão-de surgir alternativas, de que o País, de resto, se encontra aflitivamente carecido.

Um abraço.
 
Corrijo vias por via, obviamente
 
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